Seleção de Ações para o Investidor Defensivo

Tempo de leitura: 6 minutos

Neste artigo irei mostrar se há ou não viabilidade em usar os critérios estabelecidos por Benjamim Graham para a seleção de ações individuais pelo chamado investidor defensivo. Já escrevi um artigo mostrado os critérios que Graham sugere no seu clássico O Investidor Inteligente, portanto, recomendo que leia o artigo Investimento Defensivo: Retornos Médios Sem Esforço, caso ainda não tenha o feito.

Os Critérios de Graham: Uma Revisão

Se aplicássemos os critérios originais de Graham na bolsa brasileira é bastante provável que não encontrássemos uma ação sequer que atendesse a todos os critérios.  Vale notar que o mercado acionário brasileiro é muito menor do que norte-americano para o qual Graham escrevia, o que diminui o número de escolhas possíveis. Também vale notar que os mercados financeiros surgiram a menos tempo aqui, de modo que não é muito comum encontrar ações que atendam critérios como o de pagamento de dividendos interrupto nos últimos 20 anos, por exemplo.

Para que a seleção defensiva de Graham seja aplicada a situação brasileira, portanto, é necessário “flexibilizar” os critérios originais, uma vez que eles provavelmente são conservadores de mais para o nosso contexto histórico e geográfico. Dessa forma, eu fiz uma revisão dos critérios originais de Graham tentando mantê-los rigorosos o suficiente para não incorrer na seleção de ações menos seguras, das quais o investidor defensivo deve buscar distância. Por fim, cheguei aos seguintes critérios, que considero aceitáveis para o investidor defensivo.

  1. Tamanho adequado da empresa: Valor de mercado acima de R$500 milhões.
  2. Uma condição financeira suficientemente forte: Liquidez corrente de pelo menos 1.
  3. Estabilidade de lucros: Lucros constantes nos últimos cinco anos.
  4. Histórico de dividendos: Dividendos ininterruptos por pelo menos 5 anos.
  5. Crescimento dos lucros: Crescimento de no mínimo 4% ao ano no lucro líquido médio dos últimos dez anos.
  6. Razão preço/lucro moderada: Índice P/L inferior a 15 para os lucros dos últimos três anos.
  7. Razão preço/ativos moderada: Produto do P/L (Preço/Lucro) vezes o P/VPA (Preço/Valor Patrimonial por ação) não deve exceder 22,5.

Depois de estabelecidos os critérios mínimos, verifiquei quantas ações passariam por cada um deles, como você confere no próximo tópico.

Filtro de Ações: Os Resultados

Avaliando uma Empresa com os Critérios de Graham

Hoje em dia, felizmente, contamos com ferramentas de online para buscar ações com base em determinados critérios, de modo que a procura de ações ficou muito mais fácil que nos tempos de Graham. Realizando a filtragem através do site GuiaInvest e analisando um total de 670 ações, foi possível verificar que o critério de lucros constantes nos últimos 5 anos – provavelmente o critério que Graham consideraria o mais rigoroso – foi alcançado por 1/4 do total de ações da bolsa. A tabela a seguir mostra o número de ações que foram aprovadas em cada um dos critérios:

Critério Nº de Papéis Porcentagem
Valor de mercado (>500 mi) 250/670 37,3%
Liquidez Corrente (>1) 286/670 42,7%
Lucros constantes (5 anos) 167/670 24,9%
Dividendos ininterruptos (5 anos) 192/670 28,7%
Cresc. dos lucros em 10 anos (>4% a.a.) 103/670 15,4%
Razão P/L (<15) 195/670  29,10%
Razão P/L X Razão P/VPA (<22,5) 136/670  20,30%

Observe que o principal critério limitador para a seleção de ações é o crescimento médio dos lucros nos últimos 10 anos, quesito em que apenas 130 papéis tiveram uma taxa positiva, dos quais em 103 dos casos essa taxa foi igual ou superior a 4% ao ano.

Uma vez que Graham dizia que o investidor defensivo deveria comprar apenas ações que atendam a todos esses critérios, isto é, sem deixar que um resultado muito positivo em um dos critérios compensasse um critério com um resultado negativo, verifiquei também quantos papéis atendiam a todos os critérios.

O resultado foi que das 670 ações analisadas apenas 20 atenderam a todos os critérios pré-estabelecidos. Entre elas havia as que representavam uma mesma empresa (ações ON e PN), o que significou um resultado final de 12 empresas diferentes. O resultado final da seleção é apresentado na tabela a seguir. Os dados são do dia 10/01/2017 e foram selecionados através da ferramenta “Stock Guide” do site GuiaInvest.

ATENÇÃO: Essa lista é uma simples demonstração das ideias de Graham para a seleção de ações e NÃO representa uma recomendação de compra.

CARTEIRA DEFENSIVA DE GRAHAM
Papel Setor Liquidez Corrente P/L Médio 3 Anos Cresc. Lucros 10 anos (% a.a.) P/L x P/VPA Variação do Preço (% 365d)
BANRISUL ON Banco 5,53 5,3 5,88 +42,28
BRADESCO ON Banco 8,83 12,7 18,23 +85,56
BRASIL ON Banco 4,62 5,8 8,73 +116,49
COMGAS ON Gás 1,2 6,12 9,3 10,97 +58,75
ENERGIAS BR ON Energia Elétrica 3,8 8,72 9,9 8,15 +26,06
ENERGISA ON Energia Elétrica 4,8 4,23 14,2 2,68 +82,20
GRENDENEON Calçados 9,6 9,16 16,5 17,93 +12,15
ITAUSA ON Holding Financeira 6,91 4,9 9,94 +44,49
ITAUUNIBANCO Banco 9,60 12,1 18,61 +57,87
MONT ARANHA ON Holding Diversificado 3,3 14,45 10,3 12,56 +15,87
MARCOPOLO ON Material Rodoviário 2,4 14,54 7,1 9,01 +33,14
SANEPAR ON Água e Saneamento 1 6,35 13,5 3,08 +58,15
MÉDIA 8,25 10,14

De início é possível notar que o número de ações selecionadas é apenas um pouco maior do que o mínimo necessário para montar a carteira diversificada que Graham sugere, que deveria conter entre 10 e 30 ações.

A carteira teórica resultante também apresentou pouca diversificação entre setores. Há cinco empresas financeiras (quatro bancos e uma holding) e quatro empresas de utilidade pública. Esse fato traria um risco adicional para o investidor, o qual o investidor defensivo não está disposto a correr.

Conclusão

Mesmo utilizando critérios aproximados aos de Graham na sua obra O Investidor Inteligente, a seleção de ações individuais, quando realizada no dia 10/01/17, resultou em uma lista restrita para a montagem de uma carteira para o investidor defensivo. Apesar de atingir o número mínimo necessário de 10 ações, a lista não fornece uma ampla gama de opções de compra para o investidor, tão pouco empresas diversificadas, como era a proposta de Graham.

Então devemos jogar a teoria de Graham pela janela porque não encontramos ações defensivas? Alguns investidores como Warren Buffett irão concordar com os resultados e dirão que não há outras empresas boas para investir no momento. Assim, pode ser que a estratégia de Graham apresente uma seleção de ações mais ampla em outros períodos.

E se flexibilizarmos os critérios ainda mais? Bem, então é claro que mais opções irão surgir. Se diminuirmos a razão P/L máxima de 15 para 20, por exemplo, teríamos duas novas empresas que passariam na seleção. Ao fazer isso, contudo, começamos a corremos um risco cada vez maior de selecionar ações especulativas, das quais o investidor defensivo deve manter distância a qualquer custo.

Este artigo faz parte de uma série sobre Benjamin Graham e o Value Investing (Investimento em Valor). Abaixo você confere os demais artigos da série:

(crédito das imagens: shutterstock.com)

  • Fernandes

    Pena que a lista não é diversificada entre os setores. Diogo, esse estudo só reforça minha inclinação de momento para ETfs, contudo estudarei para investir quem sabe em ações individuais.

  • João Moraes

    Diogo, excelente série. Era o que buscava.
    Mas diga uma coisa : para obter os dados, você precisou da assinatura do GuiaInvest ou conseguiu as informações na área gratuita do site?

    • Olá João,
      Precisei assinar. Infelizmente não temos no Brasil nenhum banco de dados gratuito que seja completo a ponto de permitir a filtragem de ações dessa forma.