Como Avaliar Ações: Os Principais Indicadores

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O processo de avaliação de empresas (ou valuation, em inglês) é usado para estimar quanto uma empresa vale, isto é, o seu valor intrínseco. Para isso, geralmente se utiliza algum modelo quantitativo. No entanto, existem diversos índices e indicadores, que podem ser usados para nos dar uma pista do valor relativo da empresa, isto é, se ela está cara ou barata. Eles podem ainda ser utilizados para fazer comparações entre empresas diferentes.

Assim, o objetivo deste artigo é apresentar os indicadores de análise fundamentalista mais utilizados e explicar seu significado de forma detalhada. Espero que goste do conteúdo!

Lucro por Ação (LPA)

Umas das formas mais simples de começar avaliando uma empresa é através de seus lucros. O lucro não é nada mais do que o dinheiro que “sobra” depois da empresa pagar seus custos de produção. Para comparar os lucros de empresas diferentes eles precisam ser de alguma forma padronizados. A forma mais comum de fazer isso é através do Lucro por Ação (LPA), dado pela fórmula a seguir:

Lucro por Ação = Lucro Total / Número de Ações

Geralmente usa-se o lucro dos últimos 12 meses, contudo, outras formas de cálculo são possíveis como: lucro estimado do próximo ano, ou a média de lucro de vários anos anteriores.

O que o LPA nos diz? Absolutamente nada! Um lucro alto não significa que vale a pena comprar as ações de uma determinada empresa, pois elas podem estar sendo vendidas a um preço correspondentemente alto. O LPA é importante apenas porque pode ser utilizado na montagem de outros índices, como o P/L, por exemplo.

Índice P/L

Uma vez que o LPA por si só não nos diz nada é comum olhar a relação entre o LPA e o preço da ação, o que é feito através do Índice P/L. O índice de Preço por Lucro (P/L) é o mais básico e provavelmente o mais conhecido e utilizado indicador fundamentalista. Ele é dado pela seguinte fórmula:

P/L = Preço da Ação / LPA

O resultado representa, em teoria, o número de anos que leva para o investidor receber seu investimento de volta. Por exemplo, se o P/L foi 15 isso significa que levará 15 anos para os lucros da empresa pagarem o seu atual preço de mercado. É claro que isso não é exatamente verdade, uma vez que não há garantia nenhuma sequer de que a empresa continuará operando daqui a 15 anos. A experiência prática, no entanto, tem mostrado que a tendência é que o lucro da empresa aumente a cada ano, de modo que o retorno provavelmente será mais rápido do que indicado pelo P/L.

O P/L é, sem dúvidas, um dos indicadores mais incompreendidos. Isso porque os investidores costumam buscar ações que têm um P/L baixo, pois assim irão receber o seu investimento de volta em menos tempo. Mas um P/L alto não sugere que há uma expectativa de que os lucros aumentem no futuro? A resposta é sim. Então um P/L muito baixo pode nos dizer, na verdade, que o mercado avaliou que os lucros não irão aumentar no futuro, o que pode indicar que há algum problema com a empresa. Da mesma forma, um P/L muito alto indica que o lucro está muito baixo – ou que a ação está muito cara.

A conclusão que se pode ter é que o P/L, por si só também não mostra muita coisa sobre a situação da empresa, podendo ser encarado com uma medida do grau de confiança que o mercado tem em relação aos lucros futuros da empresa e, em última instância, da empresa com um todo. Muitos investidores, ao procurar por ações em bancos de dados, como no GuiaInvest, por exemplo, cometem o erro de parar de analisar um papel ao descobrirem que ele tem um índice P/L alto, ignorando os demais indicadores. É preciso contrastá-lo com outros indicadores para entender a situação da empresa. Assim, dependendo do que os outros indicadores mostrarem, tanto uma ação com um P/L alto como uma ação com um P/L baixo podem ser atrativas. Uma alternativa em relação ao P/L é o índice PEG, como veremos a seguir.

Índice PEG

Um pouco parecido com o P/L é o índice PEG (Price Earnings Growth Factor ou “Fator Preço/Lucro/Crescimento”). Ele pode ser obtido dividindo o P/L pela taxa (anual) estimada de crescimento de lucros.

PEG = (Preço da Ação / Lucro por Ação) / Taxa de Crescimento Anual do Lucro

Enquanto que o P/L considera apenas o passado, o PEG leva em consideração o lucro futuro, que é o que acaba realmente importando para o investidor. Assim, um PEG igual a 1 indica, em teoria, que a empresa está avaliada corretamente pelo mercado, isto é, está sendo vendida pelo seu preço justo. Um PEG abaixo de 0,66 indica uma subvalorização atrativa e um PEG acima de 1,5 um claro sinal de sobrevalorização.

Índice Preço/Vendas (PSR)

O Índice PSR é outro índice parecido com o P/L. A diferença é que o PSR mede o preço da empresa em relação a suas vendas, em vez do lucro. Como os lucros estão propensos a serem manipulados através de distorções contábeis, pode-se considerar as vendas (receita líquida) um componente mais confiável para calcular o preço da ação. O Índice PSR fornece uma outra perspectiva sobre a empresa, que complementa outros indicadores, como o P/L.

PSR = Preço da Ação / Receita Líquida por Ação

Da mesma forma que o PEG quanto menor for esse índice melhor, sendo que um índice igual a 1 indica que a empresa está avaliada corretamente pelo mercado.

Vale observar que as empresas geram receita pela venda de bens e serviços, ou seja, sempre haverá receitas mesmo que a empresa opere com prejuízo. Se uma empresa não tiver obtido lucro o uso do PSR se torna mais interessante, uma vez que é possível comparar o PSR dessa empresa com as empresas concorrentes para avaliar se há chances de ela voltar a obter lucro.

Comparar o PSR com o P/L também é interessante para procurar por possíveis discrepâncias. Suponha que uma empresa possui um baixo P/L (altos lucros) e um alto PSR (poucas vendas). Isso pode indicar que os lucros obtidos foram excepcionais e não tenderão a se manter no futuro.

Valor Patrimonial por Ação (VPA)

Os indicadores que vimos até agora foram todos baseados ou lucros ou nas vendas. O Valor Patrimonial por Ação (VPA), por sua vez, é um indicador baseado no patrimônio líquido da empresa. O patrimônio líquido representa tudo que a empresa possui, isto é, tudo que sobraria caso a empresa viesse a ser liquidada. O VPA é dado pela seguinte fórmula:

Valor Patrimonial por Ação = Patrimônio Líquido / Número de Ações

Assim como o LPA, o VPA não nos diz muita coisa sobre a empresa – além do seu tamanho. Para descobrir se ela está cara ou barata é necessário calcular outros índices, como o P/VPA.

Índice P/VPA

Enquanto que o P/L mostra quanto os investidores pagam por cada real de lucro, o Índice P/VPA mostra o quanto eles pagam por cada real do patrimônio líquido da empresa. O Índice P/VPA é dado pela seguinte fórmula:

P/VPA = Preço da Ação / (Patrimônio Líquido / Número de Ações)

O indicador mostra se o preço a qual a ação está sendo negociada no mercado está abaixo ou acima do seu patrimônio líquido, sendo que um P/VPA igual a 1 representa que a ação está sendo negociada a um preço equivalente ao seu patrimônio líquido.

Em teoria, um P/VPA abaixo de 1 indica que a ação está barata e acima de 1 indica que ela está cara. Mas isso obviamente não é necessariamente verdade. Uma empresa pode ter um P/VPA baixo devido a problemas que enfrenta e uma empresa com P/VPA alto pode não estar cara, uma vez empresas de alguns setores não precisam de muito patrimônio líquido para gerar lucros.

ROE

O ROE (Return on Equity ou Retorno sobre o Capital Social) é um índice que representa quanto de lucro a empresa consegue gerar em um ano em relação a seu patrimônio líquido. Ele é obtido pela seguinte fórmula:

ROE = (Lucro Líquido / Patrimônio Líquido) x 100

Geralmente usa-se o lucro anual e o patrimônio líquido médio do ano para o cálculo. O resultado do ROE é dado em termos percentuais.

O ROE mostra se a empresa é criadora de ativos (se o ROE for positivo) ou consumidora de caixa (se o ROE for negativo). Um ROE de 10%, por exemplo, indica que em 12 meses a empresa obteve um lucro que equivale a 10% do seu patrimônio líquido. Ou em outras palavras, indica que ela gera 10 centavos de novos ativos para cada real originalmente investido.

Geralmente um ROE de pelo menos 15% é considerado bom. Um ROE alto pode justificar a compra de empresas com P/VPA baixo, uma vez que ela consegue gerar lucro mesmo sem depender tanto do patrimônio líquido.


Também é possível avaliar as empresas pela ótica da renda, isto é, pelo pagamento dos dividendos. No artigo Dividendos: O Guia Absolutamente Completo você poderá saber mais sobre esses indicadores.

Conclusão

Este artigo teve a intenção de ser apenas uma introdução sobre a análise fundamentalista, mostrando alguns dos indicadores mais básicos utilizados. Espero que tenha ficado claro as restrições de cada indicador, de forma que é possível observar que os mesmos podem ser interpretados de diferentes formas, dependendo da situação da empresa como um todo. Assim, esses índices nunca devem ser vistos isoladamente, mas comparados com os de outras empresas, de preferência do mesmo setor. Também é interessante analisar a média histórica de cada um dos indicadores da empresa.

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(crédito das imagens: shutterstock.com)