Porque Você Precisa ter Medo da Inflação (e Como se Proteger Dela)

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É fato que muitas pessoas ignoram a inflação na hora de calcular a rentabilidade de seus investimentos. Afinal, ela não passa de um inconveniente, não é mesmo? Não, infelizmente a verdade não é essa. A inflação não é só uma pedrinha no seu sapato, mas um câncer que, lenta e incansavelmente diminui o poder de compra do seu dinheiro. Ignorar os efeitos da inflação quando se fala de investimentos é muito perigoso.

Impostos e Inflação

No momento em que escrevo este artigo, em meados de setembro de 2015, a inflação medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) voltou a atingir o nível de 9% no acumulado de 12 meses, algo que não se via há mais de 12 anos. Falar sobre a inflação hoje é, portanto, mais importante do que nunca. Gostaria de fazer aqui uma analogia interessante entre os impostos e a inflação, tanto quando se fala de investimentos como nas outras trocas realizamos no dia-a-dia.

Uma constatação simples, porém não óbvia, que podemos fazer é que a inflação e os impostos têm exatamente o mesmo efeito sobre os nossos bolsos: reduzem nosso poder de compra. A diferença é que os impostos reduzem o poder de compra “à luz do dia”, enquanto que a inflação faz o seu trabalho sujo no “meio da noite”, de forma que você não possa vê-la.

A inflação não é, portanto, nada mais do que um imposto oculto. Isso é verdade sob todos os aspectos, uma vez que ambos são causados pelo governo e ambos beneficiam o governo com dinheiro adicional, enquanto deixam você mais pobre.

Se os impostos sob um determinado produto aumentarem ou se a inflação aumentar o efeito para você será o mesmo: ele ficará mais caro. Em ambos os casos você pode observar esse aumento, pois o valor nominal do produto sobre. E apesar do mesmo não ser tão aparente no caso dos investimentos, o seu efeito é o mesmo. Tanto um aumento na alíquota de imposto sob um determinado tipo de ativo como um aumento da inflação reduzem a rentabilidade real do mesmo.

Portanto, é preciso tomar muito cuidado com a ilusão inflacionária. Enquanto você parece estar acumulando uma fortuna, você pode estar, na verdade, diminuindo o seu poder aquisitivo. Tenha cuidado ao analisar apenas os valores nominais, pois, daqui a 20 ou 30 anos com um milhão de reais você vai poder comprar muito menos coisas do que compraria hoje.

A Importância da Rentabilidade Real

Sem sombra de dúvidas é muito bonito ver um gráfico crescente, no qual o seu dinheiro aumenta vertiginosamente ao longo dos anos, contudo ele não passa disso: uma imagem bonita. De nada adiante ter uma rentabilidade muito alta se a inflação também for muito alta. É preciso comparar a rentabilidade dos seus investimentos com a inflação acumulada no mesmo período, como demonstra o gráfico abaixo.

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Perceba que a rentabilidade nominal de um investimento que rende 0,7% ao mês, atinge uma rentabilidade acumulada de 84,1% ao longo de dez anos. O problema é a inflação acumulada no período de 2005 à 2015 no Brasil, medida pelo IPCA, foi de 57,84%. Então, ao descontar a rentabilidade nominal da inflação chegamos a uma rentabilidade de “apenas” 16,10% durante o período analisado. Essa é a rentabilidade real do investimento, e é ela que você deve utilizar para avaliar seu desempenho. Perceba só a diferença: de uma rentabilidade nominal de 84% a rentabilidade real foi de somente 16%, o que significa uma diminuição de cerca de 80% da rentabilidade real.

Como Calcular a Rentabilidade Real de um Investimento

Calcular a rentabilidade real não é difícil, mas talvez não seja tão simples quanto você pensa. À primeira vista você pode pensar que basta subtrair a inflação acumulada no período da rentabilidade bruta do ativo neste mesmo período. No entanto, esta forma de cálculo está errada.

Para calcular a rentabilidade real você precisa somar 1 ao retorno nominal e dividir esse resultado pela soma de 1 com a inflação acumulada no período do investimento. Por fim basta subtrair 1 para obter a rentabilidade real na forma unitária. E para obter o resultado na forma percentual basta multiplicar este resultado por 100. A imagem abaixo evidencia melhor como realizar este cálculo:

fórmula

Por exemplo, digamos que o seu investimento rendeu 5% em um ano, sendo que a inflação acumulada deste mesmo período foi de 3%. Utilizando a fórmula veremos que a rentabilidade real é de aproximadamente 1,94%, pois: [ (1+ 0,05) / (1+0,03) ] – 1 = 0,019417476…


Retomando…

Se alguém lhe falar que investimentos em renda fixa no país Y estão rendendo 1000% ao ano, o que isso significa? Absolutamente nada. Você precisa saber qual é a inflação no país para determinar qual é a rentabilidade real desse investimento.

Para isso, não podemos nos esquecer de citar o exemplo do Brasil, que teve um período de hiperinflação durante as décadas de 80 e 90. Só no ano de 1990 você ficaria no prejuízo se seu investimento tivesse rendido “apenas” 1000% ao ano, uma vez que a inflação acumulada de 1990 foi de 1476%.

Desde 1994 a inflação no Brasil está em níveis menores, mas ele nunca realmente foi embora. Desde a estabilização econômica o aumento do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) tem se mantido numa média de 7,45% ao ano. Esse valor definitivamente tem efeitos diretos sobre o seu bolso e a única solução para se proteger da inflação é investir o seu dinheiro, como veremos no próximo tópico.

Como se Proteger da Inflação

Como se Proteger da Inflação

Quando se trata dos impostos muitos investidores buscam investimentos isentos de imposto ou com alíquotas mais baixas, mas quando falamos de inflação a abordagem deve ser diferente.

Para ser proteger da inflação é preciso colocar o seu dinheiro em investimentos que são susceptíveis a aumentar de valor quando a inflação está alta e evitar aqueles que tendem a crescer a uma taxa inferior a inflação quando esta está em patamares mais altos. A seguir você confere cinco dicas práticas de como proteger o seu dinheiro de uma alta inflacionária.

1. Fugindo da Poupança

A primeira forma de se proteger da inflação é evitar a Caderneta de Poupança e buscar alternativas a ela. Isso porque a remuneração dos depósitos de Poupança é composta de duas parcelas:

  1. Taxa Referencial – TR, e
  2. Remuneração adicional, correspondente a:
    1. 0,5% ao mês, enquanto a meta da taxa Selic ao ano for superior a 8,5%; ou
    2. 70% da meta da taxa Selic ao ano, mensalizada, vigente na data de início do período de rendimento, enquanto a meta da taxa Selic ao ano for igual ou inferior a 8,5%.

No momento em que escrevo essas linhas a meta da Taxa Selic é de 14,25%, logo, a remuneração se dá através da TR e da remuneração adicional de 0,5% ao mês. Já a Taxa Referencial de Juros está em 0,18% para o mês de agosto de 2015.

Isso significa que a rentabilidade da Poupança foi de 0,68% no mês de agosto de 2015, enquanto que a inflação no mesmo mês foi de 0,22%, calculada pelo IPCA. Logo, a rentabilidade mensal é de apenas 0,37%, ou seja, praticamente nada em comparação com outras opções de investimento. Desse modo, a Poupança está longe de ser uma solução viável para se proteger da inflação.

2. Investindo em Títulos Protegidos Contra a Inflação

O Tesouro IPCA+ (NTN-B Principal) é um título público do Tesouro Direto que possui rentabilidade sempre acima da inflação. Sua rentabilidade é formada por uma parte prefixada e outra que varia de acordo com o IPCA, o índice de inflação oficial do país. Dessa forma, se a rentabilidade prefixada for de, digamos, 7% ao ano, já sabemos que essa será a sua rentabilidade real, pois ela também é composta pela inflação no mesmo período.

Por ter uma parte prefixada o ideal é aguardar até a data de vencimento, isso porque as oscilações na taxa de juros podem fazer até com que você tenha prejuízo no caso de venda antecipada. Quem fica com o título até o vencimento não corre o risco de ter prejuízo e já sabe de antemão qual será a sua rentabilidade real, uma vez que o título acompanha a inflação.

Outra alternativa de investimento no Tesouro Direto é o título Tesouro Selic (LFT), que a acompanha a Taxa Selic, a taxa básica de juros da economia.

3. Evitando Investimentos com Rentabilidade Prefixada

O pior lugar para colocar o seu dinheiro durante uma alta inflacionária são os investimentos que pagam juros prefixados de longo prazo, à exceção é claro daqueles que também acompanham a inflação, como é o caso do Tesouro IPCA+.

O primeiro problema é que se você tiver um investimento com juros prefixados e a inflação for a muito maior do que a taxa prefixada você já estará perdendo dinheiro. O segundo problema é que com o aumento da inflação as taxas de juros costumam subir também e isso faz com que o preço do ativo prefixado sofra uma perda de valor, de modo que você corre o risco de sair no prejuízo se precisar vendê-lo imediatamente.

4. Optando por Investimentos de Acompanham o CDI

Investimentos como CDB, LCI e LCA, que são remunerados de acordo com a taxa DI são uma boa opção porque essa taxa aumenta junto com a inflação. Em relação aos títulos públicos a grande vantagem da LCI e LCA é a isenção de Imposto de Renda para pessoa física, o que pode resultar numa rentabilidade real expressivamente maior. Mas tome cuidado! Lembre-se que os impostos são visíveis a inflação invisível, então antes de optar por um investimento isento de IR verifique se essa vantagem realmente compensa.

Como os títulos públicos permitem a rentabilidade garantida acima da inflação a tendência é que rentabilidade oferecida por essas obrigações seja superior ao IPCA. Esses investimentos têm, porém, um risco de crédito maior do que os títulos públicos, uma vez que as chances do banco emissor não conseguir honrar o seu compromisso são maiores do que as do governo. Para investimentos de até 250 mil reais o investidor está protegido pelo FGC (Fundo Garantidor de Crédito), que ressarce integralmente o investidor no caso de falência do banco. No entanto, esse processo de restituição pode levar vários meses, então meça bem as vantagens e desvantagens de ambos os investimentos antes de optar por um deles.

5. Investindo no Mercado Imobiliário

O investimento em imóveis costuma ser uma boa forma de se proteger da inflação. A proteção contra a inflação no mercado imobiliário existe porque os preços dos aluguéis são reajustados de acordo com as alterações na inflação.

Você pode investir comprando e vendendo imóveis diretamente, mas a forma mais fácil é utilizar fundos imobiliários. Um detalhe muito importante é que as cotas dos fundos imobiliários estão sujeitas a variação de preços no mercado. Ou seja, essa modalidade de investimento não se qualifica na renda fixa, como as anteriores, mas a renda variável, em que o risco é, por padrão, maior.

Conclusão

A inflação é uma realidade que não irá desaparecer se você não pensar nela, ela sempre existirá e por isso precisamos estar sempre preparados para enfrentá-la. As dicas acima já lhe deram uma base sobre como fazer isto e espero que este artigo tenha sido útil para você. Se você tiver ficado com qualquer dúvida ou quiser contribuir para enriquecer ainda mais este conteúdo deixe um comentário no campo aqui embaixo.

(crédito das imagens: shutterstock.com)